Com volume recorde embarcado, Estado vende mais e ganha menos; queda nos preços das commodities e dólar mais baixo explicam a "síndrome do crescimento magro"
O comércio exterior de Mato Grosso do Sul segue no azul, mas o brilho do superávit já não é o mesmo. No primeiro trimestre de 2026, as exportações sul-mato-grossenses somaram US$ 2,51 bilhões, enquanto as importações chegaram a US$ 751,58 milhões. O resultado é um saldo positivo de US$ 1,76 bilhão — 5,93% menor do que o registrado no mesmo período de 2025.
Os números, divulgados pela Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), revelam um fenômeno contraditório: o Estado nunca exportou tantas toneladas, mas arrecadou menos em valor absoluto.
Entre janeiro e março, o volume embarcado cresceu 11,83%, totalizando 6,82 milhões de toneladas. No entanto, a receita com vendas externas recuou 1,66% na comparação anual. É a velha armadilha do exportador de commodities: produz-se mais, vende-se mais, mas ganha-se menos por unidade.
Pela primeira vez em mais de um ano, a soja desbancou a celulose e reassumiu o posto de principal produto da pauta exportadora do Estado. A oleaginosa respondeu por 28,32% das vendas externas, contra 27,41% da fibra de eucalipto produzida em larga escala por gigantes como a Suzano em Três Lagoas.
O movimento reflete a safra recorde de grãos no Centro-Oeste e a retomada da demanda chinesa, que continua de olho no mercado brasileiro. A carne bovina, terceira colocada, manteve participação expressiva de 19,38%.
“A soja voltou com força, mas a celulose ainda é um pilar estratégico. O que vemos é uma alternância natural entre ciclos de preço e demanda”, analisa o economista e consultor de comércio exterior Luiz Fernando Guedes.
No campo das importações, o gás natural retomou a liderança histórica, representando 24,21% do total comprado pelo Estado — revertendo a atipicidade do bimestre anterior, quando caldeiras e geradores de vapor haviam assumido o topo da lista.
O secretário da Semadesc, Artur Falcette, atribui o desempenho moderado a um cenário internacional adverso. “Há pressão sobre os preços das commodities, elevada oferta global e instabilidade geopolítica. Isso limita o crescimento do valor exportado, mesmo com aumento do volume embarcado”, afirmou.
Os números comprovam a análise. Enquanto o setor agropecuário até conseguiu elevar seus preços médios em 11,11% — puxado pela carne e pelo milho —, a indústria de transformação amargou queda de 3% nos preços. Já a indústria extrativa viu seus preços despencarem 45,29%, embora tenha conseguido aumentar o volume exportado em 42,36%.
Ou seja: o Estado está vendendo mais minério e brita, mas por um valor muito menor. É o retrato da desvalorização global de matérias-primas não agrícolas.
A concentração comercial segue sendo uma marca de Mato Grosso do Sul. Sozinha, a China absorveu 44,84% de tudo o que o Estado exportou no trimestre. Estados Unidos (8,58%), Países Baixos (4,35%) e Itália (3%) completam a lista.
A novidade, segundo a economista Bruna (mencionada no relatório técnico), é o crescimento da participação norte-americana na pauta local — reflexo, em parte, da demanda por carne e etanol, ainda que o etanol não figure entre os principais itens do período.
No escoamento da produção, a lógica geográfica permanece: Paranaguá (40,83%), Santos (38,27%) e São Francisco do Sul (9,37%) seguem como os portos de saída preferenciais. A ausência de um corredor logístico robusto no Arco Norte ainda é um gargalo para o Estado.
Entre os municípios, Três Lagoas segue como a maior plataforma de exportação do Estado, responsável por 18,94% do total. A cidade abriga a maior fábrica de celulose do mundo e beneficia-se da malha ferroviária.
Em seguida aparecem Ribas do Rio Pardo (12,01%), onde a Suzano também opera uma megaunidade; Dourados (9,87%), polo agroindustrial; e Campo Grande (7,59%), com sua diversificação entre indústria e logística.
A descentralização das exportações é um dado positivo: mostra que o crescimento não está restrito à capital ou ao bolsão da celulose.
Em março de 2026, a cotação média do dólar foi de R$ 5,23 — leve alta de 0,59% em relação a fevereiro, mas queda expressiva de 8,96% ante março de 2025. Para quem exporta, isso significa menos reais por cada dólar recebido. Para quem importa (como as indústrias que compram gás natural e máquinas), alivia o custo.
O câmbio mais baixo ajuda a conter a inflação de insumos, mas comprime a margem do produtor rural e do industrial que depende das vendas externas. É mais um fator que explica o fenômeno do “exporta mais, fatura menos”.
Desde 2015, Mato Grosso do Sul mantém uma sequência ininterrupta de superávits comerciais. A vocação exportadora do Estado — baseada em soja, celulose, carnes e minério — é inegável. No entanto, especialistas ouvidos pela reportagem apontam um risco: a dependência excessiva de poucos produtos e mercados.
“O grande desafio de MS agora é agregar valor àquilo que exporta. Enquanto embarcarmos toneladas de soja em grão e celulose bruta, estaremos sujeitos à volatilidade dos preços globais. O próximo passo precisa ser a industrialização local e a diversificação de destinos”, avalia a economista e professora da UFMS, Carla Mendonça.
Enquanto isso, o primeiro trimestre de 2026 mostra um Estado que segue competitivo, mas que já sente o aperto de um mundo mais instável, com juros altos nos países desenvolvidos, desaceleração chinesa e guerras comerciais latentes.
O superávit de US$ 1,76 bilhão é um bom número. Mas poderia ser melhor — se os preços ajudassem, se o dólar colaborasse e se a pauta exportadora fosse menos refém do mercado spot de commodities.