Relatório expõe água ruim em rios de MS, sob pressão de esgoto e desmate
Levantamento divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, traz um alerta para Mato Grosso do Sul: a qualidade da água dos rios que integram o bioma no Estado permaneceu estagnada em patamar intermediário ao longo de todo o ano de 2025, sem avanços significativos.
O estudo, intitulado “Observando os Rios 2026 – O retrato da qualidade da água nos rios da Mata Atlântica”, apresenta dados coletados entre janeiro e dezembro do ano passado e aponta que, em nível nacional, quase 80% dos pontos monitorados apresentaram qualidade regular. Em Mato Grosso do Sul, o cenário segue a mesma tendência, com rios emblemáticos do Estado oscilando entre as classificações “regular” e, em alguns períodos, “ruim”.
No Estado, o monitoramento ocorre em 10 pontos dentro da bacia do Rio Paraguai, envolvendo diferentes atores, como o Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB), comunidades tradicionais como o Quilombo Aquiran, a organização SOS Pantanal, além de iniciativas locais em Aquidauana, Bonito, Miranda e Corumbá.
Os resultados mostram que, em todo o ano, as águas analisadas ficaram em situação regular de qualidade. O único registro de água com qualidade boa ocorreu em janeiro de 2025, no Rio Formoso, em Bonito, com pontuação 36 — dentro da escala que varia de péssima (menor que 20) a ótima (maior que 40). No restante do ano, o mesmo trecho permaneceu em condição regular, variando entre 29 e 34 pontos.
No Rio Aquidauana, medições feitas na Chácara São Paulo indicaram qualidade regular durante praticamente todo o ano, com índices entre 26,9 e 34. Em abril, houve uma piora para a classificação “ruim”, com índice 25. Em comparação com 2024, quando houve registro pontual de qualidade boa em outubro, o desempenho geral se manteve estagnado.
Situação semelhante foi observada no Rio Miranda, monitorado em diferentes pontos. No Quilombo Aquiran, dois meses registraram qualidade ruim (índice 26), enquanto nos demais períodos predominou a classificação regular, entre 27 e 31. Nos trechos do Salobra e em áreas de Corumbá, a condição permaneceu regular ao longo de todo o ano.
Outros cursos d’água acompanhados por instituições locais, como o Córrego Bonito e o Córrego Restinga, também não apresentaram melhora expressiva nos indicadores mais recentes. Seis pontos de coleta de água, no entanto, não tiveram atualização de dados no período analisado.
O quadro observado em Mato Grosso do Sul reflete uma realidade mais ampla. Em todo o Brasil, a qualidade da água dos rios da Mata Atlântica permanece estagnada em níveis considerados insatisfatórios. O relatório reúne dados de 1.209 análises feitas entre janeiro e dezembro de 2025, em 162 pontos de coleta distribuídos por 128 rios e corpos d’água, em 86 municípios de 14 estados.
Os resultados mostram que nenhum ponto atingiu qualidade ótima. Apenas 3,1% foram classificados como bons, 78,4% apresentaram qualidade regular, 15,4% foram considerados ruins e 3,1% ficaram na faixa péssima. Na prática, quase oito em cada dez pontos monitorados apresentam qualidade apenas regular — um nível que indica água utilizável, mas com limitações e necessidade de tratamento para consumo humano.
A comparação com 2024 revela leve piora: houve queda no número de pontos com qualidade boa e aumento das classificações regular e ruim, mantendo o quadro de pressão constante sobre os recursos hídricos.
Segundo o levantamento, a qualidade da água está diretamente relacionada a problemas estruturais ainda não resolvidos no país. Entre os principais fatores estão a falta de saneamento básico, o lançamento de esgoto sem tratamento, o desmatamento — especialmente da vegetação ciliar —, o uso de agrotóxicos, a urbanização desordenada e os efeitos das mudanças climáticas.
Apesar do cenário preocupante, cerca de 81,5% dos pontos monitorados ainda permitem usos múltiplos da água, como abastecimento (com tratamento), irrigação, atividades industriais e lazer. Especialistas alertam, porém, que esse equilíbrio é frágil e pode se deteriorar rapidamente sem intervenções estruturais.
A Mata Atlântica é considerada um dos biomas mais importantes do país. Reconhecida como Reserva da Biosfera pela Unesco e Patrimônio Nacional pela Constituição de 1988, ela abriga mais de 70% da população brasileira e desempenha papel fundamental na regulação do clima, no ciclo da água e na conservação da biodiversidade. Apesar disso, restam apenas cerca de 24% de sua cobertura original, o que aumenta a vulnerabilidade dos rios e nascentes.
O estudo demonstra que os rios monitorados não estão em colapso, mas permanecem longe do ideal, o que indica um sistema em equilíbrio instável, pressionado por fatores ambientais e pela ausência de políticas estruturais mais eficazes.
A conclusão do relatório reforça a urgência de investimentos em saneamento, recuperação de matas ciliares e gestão integrada das bacias hidrográficas. Para Mato Grosso do Sul, onde a natureza é um dos principais ativos econômicos e turísticos, a mensagem é um sinal de alerta: sem cuidado, as águas cristalinas que atraem visitantes do mundo inteiro podem estar com os dias contados.