BRASÍLIA (DF) – O coração político do Brasil amanheceu tomado por vozes, cores e flechas. Mais de 7 mil indígenas de todas as regiões do país ocupam o Acampamento Terra Livre (ATL) nesta semana, e nesta quinta-feira (9) prometem fazer ecoar suas reivindicações em uma marcha que sairá do Eixo Monumental em direção à Esplanada dos Ministérios, a partir das 14h. O alvo central desta edição é claro e ambicioso: exigir a exclusão da exploração de petróleo e gás em territórios indígenas.
A mobilização, considerada a maior assembleia anual dos povos originários do país, ocorre em um momento delicado da política nacional e internacional. De um lado, o governo brasileiro tenta consolidar sua imagem de líder climático global de olho na COP30 — que será realizada em Belém (PA) em novembro deste ano. De outro, amplia concessões para exploração de petróleo na margem equatorial, inclusive em áreas que se sobrepõem a territórios indígenas sob estudo.
"Como foi uma proposta do governo brasileiro para a construção do mapa do caminho rumo ao desmatamento zero e à não exploração de petróleo e gás, nós estamos apresentando algumas propostas para serem incluídas no texto", afirmou o coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Dinaman Tuxá, em referência ao documento que será entregue ao Itamaraty.
A principal reivindicação dos indígenas neste ATL mira diretamente a política energética do país. Nos últimos dois anos, o governo federal autorizou estudos para perfuração de poços de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, uma área que abrange os litorais do Amapá e do Pará — território tradicional de povos como os Karipuna, Galibi-Marworno e Palikur-Arukuné.
Apesar do discurso ambientalista na cena internacional, organizações indígenas apontam uma contradição: enquanto o Brasil defende na ONU a necessidade de afastamento da economia dependente de combustíveis fósseis, internamente avança com projetos de exploração em áreas sensíveis.
Na COP30 de 2025, realizada em Belém, a proposta brasileira de um "Mapa do Caminho" para a transição energética não foi incluída nos consensos finais da conferência, mas recebeu apoio oficial de representantes ministeriais de mais de 80 países — o que, na visão da Apib, torna o governo ainda mais responsável por alinhar discurso e prática.
"Não se pode falar em clima e desmatamento zero enquanto se autoriza a exploração de petróleo no coração da Amazônia, perto de terras indígenas. É hipocrisia. Queremos que o presidente Lula e seu ministério coloquem isso no papel: sem petróleo em território indígena", disparou uma liderança Kayapó que participa do acampamento sob anonimato para não se expor politicamente.
A marcha desta quinta-feira não será apenas simbólica. Os indígenas entregarão um documento formal com reivindicações detalhadas ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Itamaraty. Paralelamente, serão encaminhadas pautas específicas para os ministérios dos Povos Indígenas, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e da Agricultura e Pecuária.
Entre os pontos do documento estão:
A coordenadora executiva da Apib, Dinaman Tuxá, afirmou que a mobilização deste ano é "a maior desde o governo Lula 3" e que a expectativa é de diálogo direto, sem mediações. "Nós vamos entregar documentações nos ministérios. Não queremos só conversa. Queremos protocolos assinados e prazos."
Se a exploração de petróleo é a novidade desta edição do ATL, a demarcação de terras é a ferida que nunca cicatrizou. Desde 2023, o governo Lula demarcou 14 terras indígenas — um número considerado baixo por organizações do setor, principalmente quando comparado às 44 demarcações realizadas no governo Dilma Rousseff entre 2011 e 2014.
Atualmente, há mais de 200 processos de demarcação paralisados por pressão do agronegócio e de bancadas ruralistas no Congresso Nacional. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 48/2023, que tenta instituir o marco temporal como critério para demarcações, segue engavetada, mas ameaça retornar à pauta a qualquer momento.
"A luta pelo território é a luta pela vida. Sem terra, não há língua, não há cura, não há futuro. O governo precisa entender que demarcar é o mínimo depois de 500 anos de violência", disse uma cacica Pataxó durante uma das plenárias do acampamento.
O Acampamento Terra Livre não é apenas um protesto. É também um espaço de celebração da diversidade cultural — com rituais, cantos, pinturas corporais e troca de saberes entre etnias que vão dos Yanomami de Roraima aos Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Barracas coloridas ocupam gramados próximos à Torre de TV, e a fumaça do fogão de lenha se mistura ao cheiro de jenipapo.
Mas, sob a atmosfera festiva, há urgência. A violência contra indígenas cresceu 25% entre 2024 e 2025, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Lideranças são ameaçadas de morte, territórios são invadidos por garimpeiros e madeireiros, e o Estado, apesar dos discursos, ainda não consegue garantir proteção efetiva.
"Marchamos porque parados não somos vistos. O Brasil olha para o indígena apenas quando quer mostrar ao mundo que é verde. Mas nós não somos paisagem. Somos sujeitos políticos", resumiu Dinaman Tuxá.
O ministro Mauro Vieira ainda não se pronunciou oficialmente sobre a pauta que receberá. Já a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, participou da abertura do ATL na última terça (7) e afirmou que o governo "está aberto ao diálogo, mas que as decisões sobre exploração de petróleo envolvem outros ministérios e interesses nacionais".
Para os indígenas, essa resposta não é suficiente. A marcha desta quinta-feira deve fechar a Esplanada e paralisar o trânsito no centro de Brasília. A Polícia Militar do Distrito Federal foi acionada para garantir a segurança, mas a orientação é de contenção, sem confronto.
A expectativa é de que, após a entrega dos documentos, uma comitiva de lideranças seja recebida em caráter de urgência no Palácio do Planalto. Até lá, os 7 mil acampados esperam — e vigiam.