Eles não vieram das ciências agrárias, mas foi a curiosidade, a disposição para aprender e o compromisso com a transformação social que levaram um grupo de jovens universitários a criar uma iniciativa capaz de gerar renda, fortalecer mulheres do campo e valorizar o Cerrado. Conhecidos como Guardiões do Cerrado, os estudantes são protagonistas de um projeto que colocou a macaúba — fruto típico do bioma — no centro de uma nova cadeia de valor para a agricultura familiar.
A iniciativa surgiu a partir da participação dos jovens no Programa Jovem Sucessor Rural, do Senar/MS. Durante as capacitações, eles ampliaram a visão sobre o agro, identificaram oportunidades e decidiram apostar em um recurso abundante da região, até então pouco explorado por eles. A escolha da macaúba foi estratégica: nutritiva, sem glúten, com aproveitamento integral e alto potencial comercial.
“Criar uma cadeia de valor com a macaúba foi algo que vimos como possível e necessário. Já que vivemos no Cerrado, escolhemos um fruto do próprio bioma para ser o foco do projeto”, explica João Vitor Lima, integrante do grupo.
A trajetória dos Guardiões do Cerrado começou antes mesmo do programa do Senar/MS. A vivência em ações da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, por meio do Programa de Capacitação em Empreendedorismo Rural (PCER), despertou nos estudantes o interesse pelo meio rural e preparou o terreno para o desafio seguinte. Convidados pelo Sindicato Rural de Nova Andradina, eles ingressaram no Jovem Sucessor Rural e conquistaram o terceiro lugar com o projeto desenvolvido.
“O programa mudou nossa forma de pensar. Os professores são extremamente capacitados e, a cada aula, saíamos mais motivados e com mais visão sobre o agro e o empreendedorismo”, relata João Lucas Silva, outro integrante do grupo.
Foi nesse processo de aprendizado que a macaúba deixou de ser apenas um fruto desconhecido e passou a ser vista como o “ouro do Cerrado”. Com esse novo olhar, os jovens decidiram direcionar o conhecimento adquirido para quem já produz no campo. A parceria com a Associação de Mulheres Produtoras do Assentamento Santa Olga fortaleceu laços construídos em projetos anteriores e ganhou um novo propósito.
A proposta foi integrar a macaúba aos produtos já confeccionados pelas mulheres, como pães, bolos, doces e itens artesanais, agregando valor, ampliando as possibilidades de comercialização e abrindo caminhos para novos mercados, incluindo a merenda escolar. Para isso, os jovens articularam visitas técnicas e promoveram um dia de campo com uma produtora de Aquidauana que já possui agroindústria voltada à macaúba.
O impacto foi imediato. Para a associação, o projeto significou retomada de atividades, fortalecimento da produção e novas perspectivas de autonomia financeira. “Foi uma revolução de conhecimento. Esse projeto deu um ‘up’ na nossa associação. Agora estamos caminhando juntas e acreditando que a independência financeira é possível”, afirma Delma Cauz, presidente da associação.
Com os resultados alcançados, os Guardiões do Cerrado agora miram voos mais altos. O grupo planeja transformar o Macavida em uma startup, difundir o uso da macaúba em outras regiões do país e consolidar o Cerrado como referência em inovação, sustentabilidade e empreendedorismo jovem.
“Desde o início, nossa intenção não era apenas concorrer a um prêmio, mas deixar um legado que pudesse alcançar outras comunidades e gerar impacto real”, finaliza João Lucas.
A história dos Guardiões do Cerrado mostra como o protagonismo juvenil, aliado à capacitação e à conexão com comunidades rurais, pode transformar realidades, valorizar o território e semear um futuro que já começa a dar frutos.